O DISCURSO DA ERVA
Poemas de Rafael Soto Vergés

- Capa com 3 serigrafias. 
- V1 - V2 - V3 

- Tiragem limitada de 100 ex.



 


A ESTAÇÃO DA MORTE

 A cigana adormecida nos cais, 
a quarentena da parteira
e o relógio da fruta tudo passa. 
 

Os vagões do feno e a ventura, 
entre os tristes seres que viajam, 
adormeciam, crianças, a estacão
aureolada de neblina. O fumo
do alecrim alcoólico e a hulha, 
misturavam-se na ribeira, azul, 
com os fetos da despedida. 
Oh que arrepio! A vida, passagem escura, 
avanço e retrocesso de sentimentos. 
A infância, aquela que não volta, o sopro
da existência passageira e melancólica! 
Um lenço de erva, entre a turbamulta
dos agonizantes, agitava
o sinal do encontro. Tinha nascido. 
Que alegria! A erva de uma saudação
estremecia a sua condenada mão. 


 


MADRIGAL DA ERVA 

Oh, efémera, efémera
Como pudeste assim aprisionar a minha sorte. 
Lagarto vegetal, galanteando
com os desígnios da vida. Elástica
panóplia de formosura. Verdejante, 
em frescas espadas, contra o tempo obscuro
e a voracidade celeste. Corça e menta
dos ternos suspiros. Oh traidora, 
como pudeste assim aprisionar meus lábios, 
quando cantava descuidado a água
e o gengibre sonoro dos lírios
embelezados pela húmida infância. 
Oh, efémera, efémera
aninhada no frémito do rio, 
viajando com as aves de outro Junho, 
arroupando o verdor da existência

como se o teu discurso de suaves folhas
pudesse devolver-me a minha infância, 
os meus sentimentos puros, as minhas canções
de menino morto entre a folhagem viva. 


 


ORIGEM DO AMÓNIO


Se eu pudesse ser como a pedra, 
amotinada contra o tempo, em dura
obstinação lenta e perpétua, teimosa. 
 
Se pudesse durar! Mas sou só erva
e a minha humidade, a minha ternura vivem, 
sobre o lábio, um único e resplandecente instante. 
Como encontro de órbitas celestes, 
quando na origem dos amónios
e dos duros silícios, lá no alto, 
pauto a minha leveza pelos relógios
dos breves suspiros vegetais. 
Que compaixão inspiro aos planetas
e aos rudes metais dos galináceos! 
Como se fosse um coração, morro
só de pensar na minha morte. Quão poucas horas
para falar de amor me deu o céu. 


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