PERFIL E ESTATURA DE LUÍS SOARES


Pintor - inclassificável, devido às mil tendências e variedades dos seus -,desenhador - penetrantíssimo, pela segurança dos seus traços -, ceramista - dominador da técnica subjugada - e escultor - experimenta lista da expressão da matéria, que concebe segundo o seu estilo e conhecimentos - Luís Soares tem uma trajectória ligada a todas as normas investigativas da pintura, da escultura e da cerâmica. As suas personagens transmitem uma mensagem, um diálogo gritado aos quatro ventos, depois de escutarem os seus inquiridores totémicos. Provocador, com o sabor estranho que têm as calamidades tempos, faz vibrar esse instinto heterogéneo que insere nos perfis lineares das suas figuras, com uma comunicação rara.

Reflexos de voragem e acção, temas paroxísticos, matéria tumultuosa, de agitação interior, perspectivados pela expressividade de uma arte diferente,

Actos potentes disfarçados pelas imagens evidentes de quem faz experiências com as formas a partir da dedicação pessoal às suas concepções, crenças e emoções.

Esta extensa obra que é difícil de apreender - embora não por ser complexa - nada tem a ver com aquela arte superficial que tanto êxito obtém na sociedade dos nossos dias. A sua, lembra uma crítica conceptual desatinadamente elabora : as técnicas agressivas, a original sensibilidade, os níveis de ligeireza e as formas grotescas que surgem graças a um estilo acrobático e caricatural ao nível dos artistas individuais - aqueles que apoiam o logro, o assombro satírico e o talento picassiano no próprio fascínio do espectáculo pictórico. Soares trabalha com elementos telúricos -, metáforas alegóricas que se aproximam da feitiçaria -, com elementos espirituais que se equilibram entre o estado interior e a realidade exterior “valleiclanizada”(1) pelo seu instinto inconsciente, que é mistura de intenção, choque, euforia, arranque emocional, ataque aos valores e ministério de uma arte livre . Soares “superstar” !…..

Reunir num único comentário todos os matizes da paleta de Luís Soares seria quase impossível, e ainda pior descobri-la de novo. Assim, para que o leitor-espectador se possa impregnar das sensações provocadas pelos quadros do pintor luso, nada melhor do que salientar os seus alardes inventivos da comédia patética do tempo e da vida, bem como a problemática da sobrevivência das almas dos seus protagonistas, solucionada pelos próprios meios de expressão que utiliza. Se o espectador fizesse uma ideia do que disse, isso equivaleria a reconhecer as dificuldades que levam Soares a pintar como que numa orgia de expressão. Para conseguir alcançar o que afirmo acerca do pintor em causa (a crítica à espreita) que, nos aspectos técnicos, se encontra em plena criação imaginativa e de aprendizagem estética, peço emprestadas algumas linhas à excelente pena de Maria Zembrano, interpretando assim a figura e obra de Luís Soares no seu contexto individual e analítico “o artista, ao criar, arremenda a criação divina e cria uma eternidade ….. potencialmente. É o jogo, o jogo profundo da arte”.

Arte na atitude gráfica de resposta do sujeito ao objecto, de realização plástica que fala por si própria de razões modernas para perturbar a imagem - a magia da imagem diferente - resultante dos assemblages de bonecos enérgicos e formas espectrais dos recursos pictóricos, que são os seus meios habituais de expressão. Daí esses quadros bem concretizados, que nos permitem atribuir-lhes uma parte de in expressividade, de cálculo e de geometria - mais proveniente da mão que do reconhecimento - por meio da geografia visual e ambiental, ou até do âmbito natural, que têm sido pilares mais identificadores do que descritivos na transfiguração do enunciado artístico.

O poliformismo de Soares patenteia firmemente a labuta do desenhador para que as suas obras de arte tenham um polo de atracção. É fascinante, esse processo, tanto nas estruturas básicas como nos vínculos de semelhança, que o identificam, sem hiatos, nas suas deferentes normas de trabalhar (embora não antagónicas). Não são prisões, mas sim expansões. Se temos de o entender a partir do conteúdo da independência absoluta, não é menos determinante descobrir nesta os achados que despertam a fantasia do espectador, lhe mostram a diferença de uma personalidade que desborda escolas e “ismos”, ao mesmo tempo que ensina como as suas composições inesgotáveis se conseguem manter na corrente misteriosa, inquietante, mágica e surrealista.

A linguagem específica de Soares, com certas notas de “Kandinskyanismo”, constitui uma experiência pictórica que vai do real ao maravilhoso, e que ainda nos há-de brindar com novas surpresas, sendo embora as anteriores muitas e válidas. Enquanto se vai interiorizando em abismos íntimos, consoante o avanço da sua presença artística o impele a encontrar-se com o seu eu, o conjunto importante das obras fica afastado, a salvo. A espontaneidade da cor e da linha - quase uma improvisação mental, um trabalho de identificação - recolhe a criatividade sobrepujada do artista plástico Luís Soares: do seu país e do mundo, criador de um mundo pessoal!

Mário Angel Marródan
AICA

(1) (N.T) O vocábulo vem de Rámon del Valle-Inclán (c.1866-1936), escritor galego que se inspirava na mitologia e folclore da sua região. Sonatas, a sua primeira obra amadurecida, expressava a decadência modernista. Foi um renovador do teatro contemporâneo, ambicioso, que dizia adaptar-se a sua arte ao que chamava técnica do espantalho. No romance Tirano Banderas descreve uma ditadura numa república imaginária da América Latina.


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