UM INFORMALISMO MATÉRICO E SUBTIL


Primeiro foram as multidões quase caricaturais, memória de um tempo moçambicano que tarda a esquecer, depois vieram as composições labirínticas, com linhas a cruzarem-se e a encontrarem-se mais tácita do que expressamente. Agora, Luís Soares, artista múltiplo e prolixo, chegou às máscaras simples e duplas, circundadas por elementos lineares, que vão desde a aposição directa do tubo de acrílico à utilização das cores mais primárias.

Executando trabalhos os mais variados, da cerâmica à pintura e à escultura, como quem vai gozando uma brincadeira séria, Luís Soares, pesem muito embora naturais influências várias, conseguiu um estilo próprio, que o demarca nitidamente no actual panorama artístico português, mercê de um informalismo ao mesmo tempo matérico e subtil e das suas descrições tão claras como afectivas. Ao jogar com uma produção tão copiosa quanto exuberante, sem, no entanto, perder o sentido do equilíbrio estético, a sua pintura é marcada principalmente pelo prazer da festa que deve ser a vida, atingindo normalmente grande impacto visual, mais parecendo peças de um "show" contínuo, mesmo um "happening" permanente.

Transformando um certo cubismo tardio num encontro afortunado de matérias e processos, onde os espaços são preenchidos com referências várias, as suas composições vão adquirindo significações cada vez mais cósmicas, à medida que vão tendo em conta as estruturas espaciais.

Da expressão tomou a vertente mais líquida - e disso é testemunha a fluência da sua escrita pictórica - e do lirismo a consistência do gestual, patente em toda a sua figuração, conseguindo, assim, combinar linhas e pontos que nascem com propósito determinado e acabam por ser integrados noutros núcleos de atenção.

Utilizador de vários suportes mas lidando mais à-vontade com o papel, em especial o de fabrico caseiro, Luís Soares, cuja presença em certames internacionais, de Gent, Bélgica, a Nova Iorque, entre muitas outras feiras de arte, é cada vez mais regular, prossegue efectivamente um percurso de crescente sucesso, não só devido à prolixidade da sua produção, mas sobretudo à forma sábia e inteligentemente agressiva com que está a fazer a sua própria promoção.

Jogando essencialmente com a força da emoção e com o poder comunicativo, Luís Soares tem ainda a vantagem de conservar em vários aspectos uma certa autonomia, que diferencia o que provem do interior e o que é produzido só na superfície das imagens, o que leva a sua obra a adquirir uma ética que, metade realidade, metade ideia, consegue um único modelo capaz de reavivar as capas interiores e fazer emergir as razões do seu próprio eu

Rodrigues Vaz


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